Autismo e Epidemiologia

Quantas pessoas estariam no espectro autista? Quanto custa cuidar dessas pessoas?

O primeiro estudo epidemiológico sobre autismo foi realizada por Lotter em 1966, na Inglaterra. Eric Fombonne, um dos mais produtivos pesquisadores no campo da epidemiologia do autismo, sugere dois períodos distintos para classificar os 32 estudos epidemiológicos realizados até 2001. Entre 1966 e 1991, a análise dos 16 estudos sugere o índice médio de 4,4/10000 para autismo, enquanto entre 1992 a 2001, a análise dos outros 16 estudos sugere o índice de 12,7/10000. Existiria um aumento na prevalência estimada de autismo nos últimos 15 anos?

Para responder essa pergunta, Fombonne selecionou os 19 estudos realizados após 1987, com mais de 10.000 crianças. A taxa encontrada foi de 27,5/10000 para os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), de 15/10000 para os Transtornos Globais do Desenvolvimento Sem Outra Especificação (TGD-SOE), e de 2,5/10000 para a Síndrome de Asperger (SA). Os estudos mais recentes sugerem um índice de médio de 60/10.000 para o espectro autista (Chakrabarti e Fombonne, 2001). Por fim, o último relatório do CDC americano (Central for Disease Control) traz uma taxa de 1/110 para o espectro autista, sendo 1/70 quando avaliados apenas o sexo masculino.

Este aumento da prevalência é resultado de diversas variáveis dentre as quais estão: i) as diferenças metodológicas adotadas entre os diversos estudos; ii) maior conhecimento dos níveis cognitivos associados aos TGD; iii) ampliação do conceito ao longo do tempo; iv) maior conhecimento das condições médicas associadas aos TGD (Charman, 2002).

Considerando-se as taxas de 60/10.000 ou a mais recente taxa de 1% podemos estimar, baseado no censo de 2000 (IBGE, 2000), que entre um a dois milhões de brasileiros preencham critério do espectro autista, sendo de 400 a 600 mil com menos de 20 anos, e entre 120 e 200 mil menores de cinco anos.

Com esses dados podemos considerar as implicações financeiras aos serviços de saúde e de educação, e aos programas de intervenção precoce. Apenas para exercício, utilizando a informação de gastos de famílias de classe A da cidade de São Paulo, e do interior do Estado (potencialmente os mais caros), estima-se gasto anual com o programa de intervenção para uma criança do espectro entre 24 e 72 mil reais/ano. O custo para uma instituição especializada na cidade de São Paulo para um programa por meio período é de aproximadamente 20 mil Reais ano por individuo do espectro. Tais valores motivam o empreendimento de pesquisas relacionadas aos TGD.

Referências

Chakrabarti, S; Fombonne E.  Pervasive Developmental Disorders in Preschool Children: Confirmation of Righ Prevalence. Am J Psychiatric, vol.162, n.6, p. 1133-1141, 2005.
Charman, T. The Prevalence of Autism Spectrum Disorders: Recent Evidence and Future Challenges. European Child and Adolescent Psyquiatry, vol.11, n 6, p.249-256, 2002.
Fombonne, E. Epidemiological Trends in Rates of Autism. Molecular Psychiatric, vol.7, p. S4-S6, 2002.
Fombonne, E. Epidemiological  Surveys of Autism and Others Pervasive developmental Disorders: An Update. Journal of Autism and Developmental Disorders, vol.33, n.4,p.365-382, 2003.